Circular refere-se à construção de identidades periféricas. Produzidos por jovens residentes em bairros como Vila Dirce, Ariston, Vila Menck, Cohab, Roseira Parque, Jardim Ana Estela e outros territórios de Carapicuíba, esses impressos registram experiências diretamente relacionadas às condições sociais da periferia urbana e constituem formas de elaboração simbólica das contradições presentes no cotidiano da cidade.
Assim, a periferia é entendida como uma condição social, cultural e histórica que, associada a uma determinada localização geográfica, influencia modos de vida e organiza formas de sociabilidade e de representação. As condições materiais do cotidiano, marcadas por desigualdades, atravessam tanto os conteúdos quanto as soluções visuais adotadas pelos produtores desses zines.
As narrativas presentes nessas publicações abordam situações de exclusão, preconceito, violência, desigualdade e ausência de perspectivas, mas também evidenciam experiências de solidariedade, pertencimento e organização coletiva. A gráfica punk aparece como uma linguagem capaz de traduzir essas vivências e de elaborar respostas simbólicas diante das tensões enfrentadas cotidianamente.
Essa condição periférica também se manifesta na dimensão visual das publicações. A utilização de materiais acessíveis, a apropriação de imagens oriundas da mídia impressa, o emprego de técnicas manuais de composição e a circulação restrita a redes locais revelam estratégias de produção diretamente relacionadas às condições concretas desses territórios. Logo, a periferia é elemento constitutivo das publicações, como sua composição, sua linguagem gráfica e seus modos de circulação.
Mais do que reproduzir referências oriundas de outras cenas punks, os autores reinterpretam essas influências a partir de suas próprias experiências locais. Os zines tornam-se, assim, espaços de construção de narrativas sobre o território e de afirmação de identidades coletivas, produzindo representações que articulam pertencimento, memória e crítica social. Ao documentar e ressignificar as experiências vividas nos bairros de Carapicuíba, essas publicações contribuem para a elaboração de repertórios visuais e simbólicos próprios, capazes de atribuir novos sentidos ao cotidiano e às formas de existência de seus habitantes.
Título: Objetivo – Autoria: Rosangela
Número: 01
Ano: 1999
Dimensões: 148 x 210 mm
Páginas: 12
Assuntos: MST, Mortalidade Infantil, Textos, Punk, Contatos
Publicado por Rosângela em 1999, moradora das Malvinas, na Cohab 5, Objetivo integra o conjunto de produções gráficas que acompanharam a consolidação da cena punk de Carapicuíba no final dos anos 1990. A autora participou do coletivo Faces do Hard Core, responsável pela organização de shows na Associação de Moradores da Cohab 1, espaço que desempenhou papel importante na articulação de redes culturais e de sociabilidade entre jovens da cidade. A publicação insere-se em um contexto de intensa circulação de informações, no qual os zines atuavam como instrumentos de comunicação, participação cultural e elaboração crítica da realidade.
Objetivo combina textos escritos à mão, desenhos e imagens apropriadas para abordar temas como mortalidade infantil, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, globalização e conflitos internos da cena local. Sua organização gráfica articula referências provenientes de diferentes escalas sociais e políticas, aproximando questões do cotidiano da periferia de debates mais amplos. Os procedimentos de montagem empregados na publicação participam da construção dos sentidos do impresso, estabelecendo relações entre experiência local, crítica social e posicionamento político do ponto de vista punk.
Elaborado quando a autora tinha dezessete anos, Objetivo registra uma experiência de iniciação na produção editorial e revela a importância dos zines como espaços de expressão para jovens da periferia. A publicação contribui para compreender como a prática gráfica possibilitava a construção de narrativas próprias sobre o território, suas tensões e formas de participação social, demonstrando que a produção de zines operava simultaneamente como exercício de comunicação e formação crítica.
Título: Desordeiros do Subúrbio – Autoria: Messias (Costelinha)
Número: 01
Ano: 200?
Dimensões: 148 x 210 mm
Páginas: 08
Assuntos: Liberação animal, Punk, Anti-fascismo
Editado por Messias, conhecido como Costelinha, morador do Jardim Ana Estela, Desordeiros do Subúrbio expressa uma leitura da realidade construída a partir das experiências vividas na cidade. A publicação aborda temas como antifascismo, libertação animal e crítica social, articulando debates que mobilizavam diferentes grupos punks da cidade no início dos anos 2000.
Sua linguagem gráfica combina textos, imagens apropriadas e referências às mobilizações realizadas no município. A capa do impresso registra uma ação de protesto contra um rodeio promovido na cidade, incorporando um recorte jornalístico que denuncia a violência praticada contra animais. A apropriação e a reorganização de materiais impressos no espaço da página constituem procedimentos recorrentes da cultura visual punk, nos quais montagem, deslocamento de sentidos e intervenção gráfica participam ativamente da construção do discurso político da publicação.
Esta edição participou da construção de vínculos e identidades coletivas entre jovens envolvidos com a cena punk local. O próprio título ultrapassou os limites do impresso e passou a denominar um grupo atuante na cidade nos anos seguintes, os Desordeiros do Subúrbio, revelando como determinadas publicações eram apropriadas pelos seus participantes como referências de pertencimento e reconhecimento mútuo.
Título: Revolução Libertária – Autoria: Helton
Número: 01
Ano: 200?
Dimensões: 148 x 210 mm
Páginas: 12
Assuntos: Preconceito, Punk, Poesia
Editado por Helton, morador do bairro Maria Beatriz, Revolução Libertária reúne poesias, letras de músicas e textos autorais elaborados a partir das experiências vividas na periferia de Carapicuíba. A publicação aborda temas como desigualdade social, preconceito, violência e capitalismo, articulando reflexões que emergem das condições concretas do cotidiano urbano. O zine insere-se em uma tradição de impressos independentes que utilizam a escrita como instrumento de elaboração crítica social.
Sua estrutura gráfica privilegia a escrita e o desenho tipográfico como elementos centrais da composição visual. O impresso apresenta uma organização das páginas na qual os recursos gráficos atuam de maneira complementar aos conteúdos textuais. A ausência de recursos visuais complexos desloca a atenção para os conteúdos discursivos, evidenciando a utilização do zine como espaço de expressão e reflexão.
Ao transformar experiências cotidianas em poesia, letras e textos críticos, Revolução Libertária demonstra como os zines atuavam como espaços de elaboração simbólica das vivências periféricas. A publicação contribui para compreender a produção editorial punk de Carapicuíba como um campo em que linguagem gráfica, construção identitária e contestação política se articulam na produção de narrativas sobre o território, seus conflitos e as experiências de seus habitantes.
Título: Tortura Extrema – Autoria: Alcides (Nenê)
Número: 01
Ano: 200?
Dimensões: 148 x 210 mm
Páginas: 08
Assuntos: Preconceito, Punk, entrevista, Anti-guerra
Publicado por Alcides, conhecido como Nenê, morador do Roseira Parque, Tortura Extrema integra o conjunto de produções gráficas que circularam na cena punk de Carapicuíba nos primeiros anos dos anos 2000. Além da atuação editorial, o autor participou de projetos musicais locais e manteve relações com integrantes de diferentes bandas da cidade, condição que aproxima a publicação das redes de sociabilidade que articulavam produção gráfica, música e ativismo cultural no município.
A publicação reúne textos, entrevistas e conteúdos voltados à crítica social, abordando temas como guerra, preconceito e violência. Sua linguagem gráfica é construída a partir de procedimentos recorrentes na produção do período, combinando textos datilografados, imagens apropriadas e recursos de reprodução acessíveis. Esses elementos são organizados de maneira direta, privilegiando a circulação de informações e o compartilhamento de posicionamentos críticos entre os participantes da cena.
Tortura Extrema participou da circulação de referências culturais e políticas entre jovens vinculados ao punk e ao rock metal na cidade. A publicação contribui para compreender como os zines atuavam na formação de redes de intercâmbio e na elaboração de leituras críticas sobre o cotidiano
Título: Revoltados com a Sociedade – Autoria: Messias (Costelinha)
Número: 01
Ano: 200?
Dimensões: 148 x 210 mm
Páginas: 08
Outro zine editado por Messias, morador do Jardim Ana Estela, a publicação reúne textos e imagens que abordam temas como exclusão social, preconceito e os conflitos enfrentados por jovens punks em seu cotidiano. Inserido em um contexto de intensa circulação de ideias e práticas coletivas, o zine constitui um espaço de elaboração crítica das experiências urbanas e das desigualdades percebidas pelos seus produtores.
Sua linguagem gráfica é construída a partir de procedimentos manuais característicos da cultura do Faça-Você-Mesmo, combinando escritos à mão, recortes de imagens e intervenções diretas sobre a página. A organização visual preserva vestígios do processo de produção e torna perceptíveis as condições materiais que orientaram a elaboração do impresso. Esses procedimentos participam ativamente da construção dos sentidos da publicação, articulando linguagem gráfica, experiência cotidiana e posicionamento crítico em uma mesma superfície editorial.
A publicação registra percepções construídas a partir da circulação pela Região Metropolitana de São Paulo, especialmente nos deslocamentos cotidianos entre bairros e cidades de trens e ônibus. Ao transformar essas experiências em narrativa gráfica, Revoltados com a Sociedade converte trajetos, encontros e situações vividas no espaço urbano em matéria para reflexão crítica, aproximando experiência cotidiana e produção editorial.
Nesse sentido, o zine contribui para compreender como a produção gráfica punk articulava a experiência urbana na construção de representações sobre o território. Suas páginas não apenas relatam vivências individuais, mas elaboram leituras sobre as condições de vida na periferia, transformando deslocamentos, conflitos e percepções do cotidiano em formas de expressão e registros de deslocamentos em uma cena periférica punk.