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PEIXE PODRE: Territórios Impressos de uma periferia Punk

Os zines punks produzidos em Carapicuíba entre as décadas de 1990 e 2020 constituem um conjunto de publicações que documentam experiências culturais, políticas e gráficas desenvolvidas na periferia da Região Metropolitana de São Paulo. Elaborados por jovens vinculados a bandas, coletivos e redes de amizade, esses impressos ultrapassam a condição de simples suportes informativos e configuram espaços de experimentação visual, circulação de ideias, elaboração crítica do cotidiano e construção de identidades coletivas.

Reunidos neste catálogo, os zines aqui apresentados são compreendidos simultaneamente como documentos históricos, artefatos gráficos e objetos de cultura visual, cuja organização visual e modos de execução técnica participam ativamente da produção de sentidos. Sua análise busca apontar como práticas visuais, formas de sociabilidade e posicionamentos políticos se articulam na constituição de uma cultura gráfica punk produzida na periferia de Carapicuíba. Cada publicação expressa modos específicos de apropriação dos recursos disponíveis, transformando limitações materiais em estratégias de comunicação visual.

A produção desses impressos tem início em um contexto marcado por desigualdades sociais e por condições limitadas de acesso aos meios de produção e circulação cultural, no qual o princípio punk do Faça-Você-Mesmo assumiu papel central. Mais do que uma técnica ou método de produção, constituiu uma postura ética e política que estimulava a recusa da dependência em relação às estruturas comerciais de circulação cultural.

Por meio de fotocópias, textos manuscritos, colagens, recortes de jornais, apropriações de imagens, desenhos e experimentações tipográficas, os produtores desses zines elaboraram linguagens visuais próprias. A precariedade dos materiais disponíveis não aparece como limitação, mas como elemento constitutivo de uma produção específica, marcada pela improvisação e pela intervenção. Assim, os zines podem ser compreendidos como espaços de investigação gráfica onde diferentes procedimentos visuais são mobilizados para produzir sentidos por meio da articulação entre texto, imagem e suporte.

Embora cada publicação possua características particulares, é possível identificar quatro dimensões recorrentes que atravessam este conjunto documental e orientam sua leitura: a produção gráfica, a circulação em redes, a construção de identidades periféricas e a contestação política. Essas dimensões não constituem categorias rígidas ou compartimentos isolados. Pelo contrário, frequentemente se sobrepõem e se articulam nas páginas dos zines, revelando a complexidade das práticas desenvolvidas pelos sujeitos envolvidos.

A organização deste catálogo parte do entendimento de que os zines podem ser analisados como objetos que articulam materialidade, circulação e produção de sentidos. Nesse caso, a leitura das publicações busca considerar simultaneamente seus aspectos formais, suas condições de circulação, os processos de construção identitária que atravessam seus conteúdos e as formas de contestação política inscritas em suas páginas.